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21.2.13

Actualização da Lista de Livros para Download

Chegados aqui e como tal havia dito coloco aqui alguma bibliografia que vem no seguimento de melhor esclarecer coisas que expliquei ao longo destes posts, assim como actualizar a página de Bibliografia/Downloads que já há muito desejava. Infelizmente, não tive o tempo desejado para o fazer.

No seguimento daquilo que havia dito sobre a origem da explicação das Entidades com Impregnação Religiosa recomendo este livro: WRAY, T.; MOBLEY, G - The Birth of Satan: Tracing the Devil's Biblical Roots. Nova Iorque: Palgrave Macmillan, 2005.








No seguimento da sugestão anterior, e na história da concepção das Entidades como Anjos Caídos distintos dos Anjos fieis a Deus recomendo este livro: JONES, D - Angels: a History. Oxford: Oxford University Press, 2010. (password é abc)













Para quem desejar aprofundar os seus conhecimentos na História da Magia de bases Cabalísticas, é importante que leia este livro sobre Zohar um dos mais importantes trabalhos presentes na Cabala. Já há muito que queria ter colocado aqui este livro mas não tinha tido ainda oportunidade, virei a escrever um post só sobre Zohar. Recomendo então este livro: WOLFSON, E. - Luminal Darkness: Imaginal Gleanings from Zoharic Literature. Oxford: One World, 2007.





No seguimento do estudo e aprofundamento das raízes da Magia, como por várias vezes já tive oportunidade de dizer o período Renascentista é um verdadeiro ponto de viragem. No sentido de aprofundar os fundamentos filosóficos destes Magos e deste período recomendo vivamente este livro: YATES, F. - The Occult Philosophy in the Elizabethan Age. Nova Iorque: Routledge, 2004.





Do mesmo autor, deste livro aqui em cima apresentado, disponho também uma obra muito interessante sobre o movimento do Rosacruz e dos seus manifestos. Aviso desde já o leitor que isto não trata aquilo que a «New Age» chama de Rosacruz ou as Teorias da Conspiração envolvidas à volta da história deste movimento. Este livro trata da origem e verdadeiro entendimento deste movimento o próprio autor diz: «‘Rosicrucian’ in this purely historical sense represents a phase in the history of European culture which is intermediate between the Renaissance and the so-called scientific revolution of the seventeenth century. It is a phase in which the Renaissance Hermetic-Cabalist tradition has received the influx of another Hermetic tradition, that of alchemy. The ‘Rosicrucian manifestos’ are an expression of this phase, representing, as they do, the combination of ‘Magia, Cabala, and Alchymia’ as the influence making for the new enlightenment.» Com isto em mente, recomendo vivamente este livro: YATES, F. - The Rosicrucian Enlightment. Nova Iorque: Routledge, 2003.


No seguimento das minhas sugestões sobre uma melhor comprensão da Magia através da aprendizagem da sua história, e acerca do período Renascentista, recomendo este livro: WALKER, D. - Spiritual & Demonic Magic: from Ficino to Campanella. University Park: Pennsylvania State University Press, 2000.







Outro grande livro que recomendo, apesar de este que aqui vos coloco à disposição só ter uma versão scanizada em que o livro não se encontra em perfeito estado. Contudo, o livro está perfeitamente legível, apesar de ser um pouco antigo é uma excelente referência. BUTLER, E. - Ritual Magic. Cambridge: Cambridge University Press, 1949.

6.2.13

Amarração ou Amarrações : Feitiço e Magia do Amor - Tudo aquilo que precisa de saber (Parte 3: História das Amarrações - Magia do Amor, Idade Média)

Tendo visto de forma simples a história da Amarração ou da Magia do Amor na Grécia Antiga, iremos agora avançar para o período medieval e renascentista. Com respeito ao último post perguntaram-me sobre a mesma Magia no mesmo periodo histórico mas noutras culturas, nomeadamente nas culturas Orientais. Aproveito agora para responder que infelizmente apenas sei coisas soltas sobre as velhas tradições Mágicas Orientais. Nunca me debrucei muito sobre essas tradições Mágicas. Tenho alguns bons livros sobre essas tradições, que mal tenha um pouco mais de tempo irei colocar à disposição para Download. Assim como não tão oriental mas próximo do Médio Oriente, irei colocar fontes das tradições Persas e Mesopotâneas, que foram em parte quem trouxe muitos conhecimentos Mágicos para a Grécia.

Por uma questão de simplificação vamos considerar a Idade Média como tendo ínicio após a Queda de Roma no ano de 476dc e tendo o seu fim com a queda de Constantinopla em 1453. Também por simplificação vamos considerar o Renascimento como o período que vai desde a queda de Constatinopla até ao século XVII. Logo neste post vamos cobrir este período histórico.


Infelizmente desde a Queda de Roma até ao Renascimento, sendo que este último foi um dos periodos mais férteis da História da Magia, assiste-se a uma carência de informação sobre a transição dos Ritos Mágicos Helénicos até aos Ritos Mágicos Renascentistas que são aqueles que tomam a forma mais similar com aquilo que hoje em dia se pratica. Aquilo que temos actualmente ao nosso dispor são pontas soltas. Contudo, essas pontas soltas são em número suficiente para termos uma boa imagem da História da Magia do Amor durante aquele período.

Durante o período da Idade Média, poucos eram aqueles que sabiam ler e escrever, por causa disso muitas das informações que temos vêem da parte de membros da Igreja Católica que praticavam Magia Cerimonial. Por isso, em parte o que sabemos vem destas fontes.

No que diz respeito às Amarrações e à Magia do Amor,  observamos que existem algumas coisas que se mantêm desde o período Helénico e outras que se alteram. Como havia mencionado no post anterior, novamente as mulheres são victímas do estereótipo e mito de serem as responsáveis pela práctica e desenvolvimento deste tipo de Magia.

Por outro lado, um impulso dado nos Ritos de Amarração ou de Magia do Amor acontece com a obra de São Cipriano, onde começa a surgir uma sistematização de vários Ritos Gregos e Egípcios, tendo como fim último a Amarração de Ágape, aquela que é similar ao entendimento comum de hoje em dia. E é com base nesta sistematização de São Cipriano que encontramos vários ritos e notas ao longo da subsequente história medieval, como por exemplo a do Monge Alemão Jonas Sufurino no ano de 1001.

Ao mesmo tempo, observa-se a um renovamento da Amarração de Eros, tendo o fim último de apenas se alcançar relações sexuais. Estes ritos ganham nova forma na Idade Média, e os seus relatos e ritos escritos dizem respeito a Monges e membros do Clero Católico. Poder-se-ia dizer que o fim último destes ao recorrerem a este tipo de Magia era o de Flertarem (perdoem-me o neologismo). É interessante observar que este uso da Magia de Amor surge num contexto muito diferente daquele donde teve a sua origem. Em certos estratos e pontos da Cultura Grega assistia-se a uma liberalização da sexualidade sendo nesse contexto o surgimento de vários relatos da Amarração de Eros. O que agora é curioso na Idade Média Cristã é o ressurgimento e reforço desta prática Mágica, mas agora num contexto em que a sexualidade é reprimida.

É interessante também se observar que a Amarração ou a Magia do Amor é um dos princípais alvos por parte da Inquisição sobre quem pratica as Artes, como se observa numa nota de 1627 em Veneza por parte do tribunal da Inquisição. Para mais detalhes pode-se ver no seguinte livro nas páginas 80-82, basta carregar no link: «Davies, O - Grimoires: A History of Magic Books. Oxford: Oxford University Press, 2009»

Contudo, deste último ponto é importante salientar que surge um novo tipo de Amarração, ou mais precisamente, não um novo tipo mas uma nova finalidade. A ideia que hoje temos de casamento (ou matrimónio num paradigma cristão), tem a sua origem com a evolução do cristianismo. Por isso, na Idade Média começa-se a assistir a amarrações com o objectivo último de salvar casamentos. Apesar de a questão do divórcio ser quase nula durante aquele período, o objectivo era salvar a relação e não evitar o divórcio como infelizmente hoje acontece. Um desses relatos, chega-nos de uma Maga (ou Bruxa para quem preferir) de nome Elisabete que procura recuperar a relação amorosa com o seu marido Teodorico. Contudo, como anteriormente havia referido não eram só as mulheres que praticavam a Amarração, mas os homens igualmente o faziam. Para mais detalhes sobre este tema, recomendo a leitura da página 187-188 do seguinte livro, basta carregar no link: «LÁNG, B. - Unlocked Books: Manuscripts of Learned Magic in the Medieval Libraries of Central Europe. University Park: Pennsylvania State University Press, 2008».

Ao mesmo tempo, começa-se a observar o uso da antiga Amarração Grega baseada na Philia (que expliquei no post anterior), a saber, uma amarração para criar um vínculo de amizade, mas desta vez com fins políticos. Existem relatos de que o Rei Polaco Augustine Sigismund (1520-1572), seria alvo deste tipo de trabalhos para se obter favores políticos com recurso a influências femininas. Para se ver fontes diversificadas sobre este tema basta carregar neste link: «Brzeżinska, A. - “Female Control of Dynastic Politics in Sixteenth-Century Poland"». E neste link: «Brzeżinska, A. - “Political Significance of Love Magic Accusations at the Jagiellonian Court”»

Então, deixa de ser praticada a Amarração de Afectos com o fim de «suavizar os corações» ou «ligar o que anda distante» para ser agora uma forma de vínculo a melhor se conseguir algo de um determinado alvo.

É no final do Renascimento com o surgimento dos Grimoriuns (com a forma actual com que se apresentam) que as Amarrações ou Magia do Amor foram  consolidadas.

Muito mais haveria para se dizer sobre este e o período da Antiguidade Clássica. Contudo, estes posts procuram ser simples. Em princípio não irei tratar o periodo histórico subsequente até aos nossos dias, visto já serem muito similares com o que hoje praticamos. Para mais informações este próximo livro também é interessante, basta carregar no link: «SZEGHYOVA, B. - The Roles of Magic in the Past. Bratislava: Pro Historia, 2005».




5.2.13

Amarração ou Amarrações : Feitiço e Magia do Amor - Tudo aquilo que precisa de saber (Parte 2: História das Amarrações - Magia do Amor)

Tendo no post anterior introduzido de forma simples alguns dos pressupostos para toda esta série de posts. Será agora importante uma contextualização da Amarração, não só no contexto actual, mas também dentro da história da própria Magia. Aproveito desde já para actualizar os livros e fontes que disponibilizo para Download, pois neste e nos posts subsequentes irei colocar algumas fontes que me parecem importantes para quem quiser ler, estudar ou melhor se informar.

Tal como havia referido em um post anterior, a Magia Cerimonial hoje practicada tem origem nas Tradições Mágicas Antigas. Estas tradições têm origens muito remotas desde as antigas civilizações. Todavia, os primeiros registos históricos que hoje nos chegam datam da entitulada Antiguidade Clássica. Deste um dos mais importantes são os antigos papiros Egípcios.

A História da Magia do Amor já vem relatada no Antigo Egípcio, os Egípcios recorriam às Entidades para alcançarem os seus desejos Afectivos. Encontrando-se ai fontes dos rituais Mágicos por eles utilizados, que curiosamente apresentam uma estrutura similar à que hoje em dia se pratica.

Contudo, as fontes mais interessantes e detalhados sobre a história da Magia do Amor encontram-se no princípio da Tradição Helénica, e da Cultura Greco-Latina mais tardia. Nestas fontes encontramos não só rituais devidamente descritos, bem como os fundamentos que subjaziam a esse rituais, assim como o entendimento social desse tipo de Magia na Sociedade. Curiosamente, alguns dos mitos que hoje encontramos, já se encontravam presentes em preconceitos gregos sobre essa própria Magia.

Um desses preconceitos dizia respeito ao facto de serem apenas as Mulheres a recorrer a tais recursos em ordem a conquistar os seus entes amados. Contudo, uma investigação muito interessante pelo Prof. Dickie revela que os homens recorriam tanto a esses feitiços como as mulheres. Recomendo a leitura deste artigo: «DICKIE, M. "Who practised love-magic in classical antiquity and in the late Roman world?" In: The Classical Quarterly, Cambridge Journals, 50, 2000, pp. 563-583.».

É importante ter em conta que a língua Grega distingue três palavras específicas para a nossa palavra Amor. Para além das típicas combinações, os Gregos não utilizavam o termo e não pensavam o conceito como nós. Então de forma simples os Gregos consideram três conceitos:

  1. Philia (que pode ser conceptualmente traduzido por Amor de Amizade ou de filiação, desta palavra chega-nos de forma imperfeita na nossa linguagem os conceitos de amizade a algo, como por exemplo: Columbofilia, Algofilia, etc.)
  2. Eros (que pode ser conceptualmente traduzido por Amor Sexual ou todos os aspectos da sexualidade mas intrinsecamente ligadas ao Amor, como por exemplo a descrição em Língua Portuguesa de Sexo como «Fazer Amor» ou «Relação Amorosa». Este termo está presente na nossa linguagem como: Erotismo, Erótica, etc.)
  3. Ágape (que pode ser conceptualmente traduzido por Amor Perfeito ou Puro. Neste termo encontra-se o amor de reciprocidade, de uma amor que representa fidelidade, altruismo, entrega total, amor genúino e puro. Infelizmente este termo não se encontra presente na nossa linguagem, e quando aparece está ligado ao contexto religioso cristão, como por exemplo naquele livro pateta que podemos encontrar em qualquer livraria ou na estante da Fnac de um Padre vestido de Franciscano.)

Agora, o leitor pode estar a questionar-se sobre o porquê de ser importante expor estes termos. A resposta a isso prende-se com a importância de compreender melhor a Amarração no contexto Helénico, bem como o de ser uma alavanca para a sua compreensão hoje em dia.

Por conseguinte, agora podemos entender que a Magia do Amor nos seus primórdios Helénicos encontra o seu contexto de inteligibilidade nestes três conceitos. E mesmo estes conceitos foram sofrendo diferentes entendimentos ao longo da história Grega e da nossa. Como já mencionei em cima, as diferentes religiões Cristãs aproveitaram-se esta divisão conceptual para difundir as suas crenças sobre um Amor Divino e um Amor Terreno, tal como para demarcar o que os homens deveriam seguir. Mas o mais importante é que toda a Magia do Amor subsequente encontra nestes ritos a sua origem.

Contudo, antes de avançarmos será importante ver como estes três conceitos tiveram impacto na História da Magia Cerimonial Helénica.

Comecemos pelo conceito de Eros (que já em cima resumi), durante o período clássico ele tanto foi entendido como uma força poderosa que curava e que permitia aos homens elevarem-se, assim como foi entendido como uma doença e um veneno do qual deviam de se abster (interpretação dada e seguida ao longo da história por parte do Cristianismo que procurou reprimir o prazer da sexualidade). Este Eros não era considerado somente no abstracto, mas no concreto na realidade do amante (entendido como aquela que projecta amor) e do amado (entendido como aquele que recebe e pode ou não corresponder ao Eros do amante). Um desses exemplos e um livro clássico da nossa cultura como da Magia é o Fedro de Platão (carregar no link para aceder a ele). Ao contrário daquilo que o senso-comum nos informa sobre o dito «Amor Platónico», a saber, uma versão naive e errónea daquilo que realmente encontra-se descrito em Platão, para este é uma força poderosa que está ligada principalmente à ética e ao idealismo Platónico. Nesse livro, poderão encontrar uma narração bastante interessante sobre um amante e um amado (na história ambos do sexo masculino) mas que pode ajudar a melhor compreender como era o Eros concebido em mais detalhe naquele tempo.

Contudo, aquilo que pretendo chamar à atenção é nesta polaridade do conceito de Eros, que simplificando tanto podia ser uma cura como uma doença. Similar ao termo grego Pharmakoi, do qual herdamos a palavra fármaco ou medicamento, que tem um duplo sentido em Grego, ao contrário do nosso. Pois este termo Grego tanto significa literalmente cura como veneno.

Por conseguinte, estamos aptos a perceber o porquê de na história da amarração e da Magia do Amor, nos ritos Gregos encontramos o Eros como uma Doença e a Magia do Amor uma maldição, coisa que infelizmente ainda hoje perdura granças ao preconceito Cristão que tomou esta doutrina para condenar as Amarrações e Magia do Amor. Por outro lado, também encontramos nos ritos Gregos o Eros como saudável e a Magia do Amor como uma Cura ou um Fortalecimento. Neste último sentido, as Amarrações não eram condenadas e procuradas como forma de se encontrar cura para a nossa existência, e assim uma vida mais feliz. Recomendo para quem desejar aprofundar este tema a leitura do capítulo 8, páginas 214-234 deste livro, basta carregar no link: «OBBINK, D. (ed.) - Magika Hiera: Ancient Greek Magic and Religion. Oxford: Oxford University Press, 1991.»

Prosseguindo, deste Eros vem um dos tipos de amarração (este tópico será desenvolvido em subsequentes posts) que infelizmente anda muito desinformado, chamado de Domínio Sexual. Este tipo de amarração visava não manter uma relação amorosa estável com o Alvo (como no ágape), mas apenas alcançar o objectivo de se conseguir uma relação erótica com alvo. Importa sublinhar que neste contexto, os ritos e as descrições mágicas dos mesmos não comportavam exclusivade, ou seja, não visavam que a pessoa alvo à qual o comendador desejava manter relações sexuais fosse somente fiel ao comendador. Para quem desejar aprofundar parte deste tema recomendo a leitura das páginas 41-94 deste livro, basta carregar no link: «FARAONE, C. - Ancient Greek Love Magic. Cambridge: Harvard University Press, 1999.»

Por outro lado, a partir do philia surge um tipo de amarração bem diferente daquilo que vulgarmente hoje se entende. Esta trata-se de uma Amarração de Amizade ou Amarração de Afectos. O objectivo desta, era a criação de um laço profundo de amizade e de afeição que podia ou não originar uma relação sexual ou uma relação amorosa, mas que tinha como fim último uma aproximação entre pessoas diferentes e a cessação de hostilidades entre elas. Os termos clássicos podiam ser conceptualmente traduzidos como «suavizar os corações» ou «ligar o que anda distante». Secalhar atrevo-me a traduzir para os dias de hoje como uma Amarração Soft. Um vínculo perpetuo de amizade, entreajuda e cumplicidade. Para quem desejar aprofundar parte deste tema recomendo novamente a leitura do mesmo livro mas nas páginas 97-131, bastando carregar no link do livro:«FARAONE, C. - Ancient Greek Love Magic. Cambridge: Harvard University Press, 1999.»

Por último, a partir do Ágape surge aquilo que mais se assemelha ao entendimento geral de amarração. Esta tratava-se de criar um vínculo afectivo perfeito entre o alvo e o comendador. Ou seja, criar a possibilidade de uma verdadeira relação amorosa. Contudo, este tema vai ter de ser tratado em mais detalhe nos subsequentes posts.

Finalmente queria chamar à atenção para uma bom livro para melhor se compreender a História da Magia durante este periodo. A saber, este livro do Prof. Dickie, bastando carregar no link do livro: «DICKIE, M. - Magic and Magicians in the Greco-Roman World. Nova Iorque: Routledge, 2001».





25.10.12

Filosofia da Magia - Recensão do Livro «The Language of Demons and Angels: Cornelius Agrippa's Occult Philosophy» e Download

Talvez um dos maiores Magos de toda a História, e uma figura notável do Renascimento Alemão foi Heinrich Cornelius Agrippa Von Nettesheim. Actualmente é mais conhecido por Cornelius Agrippa. Infelizmente no mundo do Esoterismo e das Ciências Ocultas, faz-se um estranho dualismo entre as importantes obras de Agrippa para a Magia Cerimonial e a sua Filosofia e Pensamento. O porquê de para alguns Magos ser difícil aplicar os conhecimentos da Magia de Agrippa resulta do facto de estarem a ler apenas os seus Grimoiriuns como se de um livro de receitas se tratasse (erro muito frequente neste e noutros autores), negligenciando a importância de toda a sua obra Filosófica, Alquimica, Astrológica e Teológica. De todas elas, a mais importante é sem dúvida a sua obra Filósofica.

Por tudo isso, recomendo este excelente livro para os mais ávidos em conhecimento: «The Language of Demons and Angels: Cornelius Agrippa's Occult Philosophy». Este livro foi escrito pelo Professor Christopher Lehrich da Universidade de Boston, e procura responder ao porquê de Agrippa ter exercido uma influência tremenda no seu tempo ainda como tem no nosso. As conclusões do Professor Lehrich assentam na própria filosofia e bases fundamentais de Agrippa, a saber a sua formação Neoplatónica, que o comprometia numa distinção fundamental entre fé e razão; entre o estudo do divino (teologia fundamental) e o estudo das coisas criadas (teologia natural).

Agrippa considerava que as incertezas da revelação Cristã, não nos referimos aos Dogmas ou aos Artigos de Fé, deveriam ser objectos do debate teológico, pelo que pensava ser adequado acomodar textos mais esotéricos assim como estratégias interpretativas para melhor se abarcar o problema da existência. O Professor Lehrich também mostra nesta importante obra, que o divino ocupa um lugar central na principal Obra Mágica de Agrippa, isto é o «De Occulta Philosophia» (1533) através da noção de «cadeia de vivificação» que liga o natural, com o celestial e com o mundo divino.

Esta noção é desenvolvida pelo autor em mais detalhe no capítulo 2 sobre o mundo natural; no capítulo 3 sobre o mundo celestial; no capítulo 4 sobre a realidade divina. Estes três capítulos centrais estão enquadrados por um capítulo introdutório, em que se anuncia possíveis ramificações teoréticas para a história da religião, da filosofia e da Magia. A obra termina com um capítulo conclusivo que sumariza a coerência do projecto intelectual de Agrippa, assim como as suas implicações para a história das ideias no período pós-moderno como nos dias de hoje.


13.10.12

São Cipriano o Santo Negro: o Exemplo de como as Artes não têm verdadeiramente cores, e que em tudo se pode obter Crescimento e Ascensão Espiritual

São Cipriano mais conhecido na tradição da Igreja Católica como São Cipriano de Antioquia é um requintado paradoxo, e na minha opinião, uma figura que vem resolver o dualismo filosófico provocado por um juízo moral errado do senso comum. A saber, a ideia que as pessoas geralmente têm, de que quem pratica ou recorre à Magia Negra tem necessariamente de ser alguém eticamente má. Então, a questão interessante a ser colocada pode ser esta: pode alguém ser um Mago Negro ou servir-se das Artes Negras e mesmo assim procurar realizar para si uma elevação e transformação espiritual? E ultimamente, o que é que constitui essa transformação se não uma ascensão para a realidade espiritual?

O Mito deste Santo tem muitas camadas e pontos de vista, quando alguém se detém em observar a veneração que lhe é dada nas tradições presentes desde a América do Sul à América do Norte (ele está mais presente nessas culturas do que na nossa cultura Europeia), onde é tido principalmente como o Patrono dos Magos, Bruxos e de qualquer pessoa dada às ciências ocultas, percebe-se que a tradição desses locais encontrou nele um exemplo de quem tendo na sua vida seguido as Artes Negras nunca deixou de através delas procurar a sua ascensão espiritual.

A vida deste Santo é bastante curiosa e boa de se saber. São Cipriano como relatam as fontes históricas e hageográficas foi um poderoso Mago, bem sucedido nas Artes Negras. Ele era especialista em Magia Negra de Conjuração, onde são relatados os seus muitos trabalhos na invocação e conjuração de Legiões de Demónios para aumento da sua sabedoria e para dominar as Artes. Contudo, aconteceu que um seu cliente certa vez pediu-lhe um trabalho de Alta Magia Negra contra a pessoa de Santa Justina. Aconteceu que esta Santa conseguiu repelir os espíritos impuros lançados por São Cipriano. Acontece, que Cipriano nessa altura teve uma revelação, e percebeu que apesar da cor negra da sua Arte, esta podia ser um meio de ascender espiritualmente. E, apesar de ter continuado um Mago Negro, ele converteu-se ao Cristianismo de então, muito diferente daquele que hoje se assiste, e pregou junto dos pagãos tendo convertido a muitos. Ao mesmo tempo, e a Igreja Católica tentou sempre apagar este facto, ele prosseguiu a sua sabedoria nas Artes Negras. Mais tarde São Cipriano tal como Santa Justina foram martirizados.

O que a Igreja Católica procura apagar é o outro lado da vida deste Santo. São Cipriano deixou-nos um Livro Negro; um Grimoirium famoso e temido através de toda a diáspora. O que é interessante sobre isso é a ambiguidade que este Grimoirium provoca em torno deste Santo, em parte por causa dos muitos mitos que estão associados a este livro. Uma dessas referências antigas, afirma que São Cipriano em verdade não se converteu totalmente ao Cristianismo, mas que este foi um meio para aprofundar o conhecimento das Artes e do seu próprio crescimento espiritual.

O Livro original de São Cipriano descreve todos os tipos de operações mágicas, desde pequenos feitiços até conjurações cerimoniais. Ele encontra-se intrinsecamente relacionado com o Grimoirium Verum. Tanto que encontramos no Livro de São Cipriano uma hierarquia dos espíritos infernais similar a este último. O que não deixa de ser curioso e que passa ao lado de muitas pessoas, para além dos mitos associados a ele, é que neste livro encontramos boa parte das raízes da tradição Umbanda e Quimbanda tão presentes no Brasil. Assim como a primeira vez que o li em português (Antigo Livro de São Cipriano: o Gigante e verdadeira capa de aço) encontrei nele imensas fontes brasileiras, feitiços e títulos que eram claramente brasileiros e não do próprio Santo. Isto deve-se à imensa influência que o livro deixou na cultura mágica brasileira. Tanto que hoje o livro chega-nos em português com mais da sua influência brasileira do que conteúdo verdadeiramente original de São Cipriano.

O que é realmente importante é que neste Santo encontramos alguém com um pé no lado Branco e outro no lado Negro. Ele demonstra com a sua vida, que é possível crescer no bem como no mal, que é possível ser se coerente praticando as Artes pelo seu valor e, que ao contrário do que o senso-comum diz, nem o dito «lado branco» ou «lado negro» são impeditivos no crescimento e elevação espiritual. Um exemplo disto, recorrendo à tradição brasileira, é que tanto umbandistas assim como quimbandistas e outros magos, quando têm de lidar com dificuldades espirituais recorrem muitas vezes a este Santo. Pois acredita-se que ele intercede junto dos praticantes das Artes, dando-lhes força, protecção e alento.

Por tudo isto, São Cipriano de Antioquia incorpora verdadeiramente esta visão mágica para mim, de alguém que soube levar a Arte até ao fim, e nela continuar a sua ascensão espiritual, pois bem e mal não têm cores, da mesma maneira que nem a Arte nem os seus praticantes e seguidores têm cores.

1.10.12

História dos Grimoiriuns (Era Magia Hermética Pt.5)

Os diferentes estudos revelam que a Magia dos papiros originais é completamente Egípcia na sua composição, conteúdo e estrutura. Isto é extremamente importante para se ter em conta, pois é a partir deste ponto que encontramos a síntese da Magia Hermética (cujo corpo de trabalho inspirará e servirá como base material dos outros seis sistemas, já listados nos posts anteriores).

No início do século VII a. c., a guerra entre o Egipto e a Grécia trouxe uma das primeiras e mais pronunciadas influências Gregas sobre a cultura Egípcia, inclusive na própria Magia. Contudo, esta influência não cresceu exponencialmente até ao ano de 332 a. c., quando Alexandre Magno conquistou este país. Foi a partir deste tempo em diante que o pensamento, teologia e filosofias egípcias cresceram com o incremento da lógica e rigor analíticos dos Gregos. Foi esta gloriosa junção que deu origem à Magia que hoje em dia apelidamos de Hermética. De facto, um exame dos escritos gregos revela que os filósofos gregos (iremos ainda publicar vários artigos exclusivamente dedicados à filosofia grega) creditaram aos egípcios muito da sua própria magia, teologia e filosofia, e esta influência pode ser verificada através dos escritos de Plotino, Porfírio, Pitágoras, Ptolomeu e Platão.

Nos séculos seguintes, os papiros mágicos que resultaram da síntese da Magia Egípcia, com o rigor e pensamento analítico Grego serviram de base e alicerce seguro para a estrutura da Magia Hermética, que está actualmente datada entre o século IV ao I a.c., salientando que o seu conteúdo data de períodos muito anteriores.

Um exemplo de como a Magia Hermética influenciou o desenvolvimento destes outros sistemas pode ser observado quando nos detemos no uso dos «instrumentos» ou «ferramentas» Mágicas para os rituais e cerimónias. Os conceitos que ai já subjazem, e a maneira que eram empregados, contêm muitos dos elementos fortes que actualmente designamos como instrumentos rituais, em termos da Magia de Invocação (ou Conjuração).



Contudo, o primeiro uso destes instrumentos de uma maneira coesiva, equilibrada e personalizada, de maneira definida por uma abordagem complexa e organizada a entidades espirituais, encontrou-se claramente integrada e refinada apenas na tradição Hermética deste tempo (séc. III a. c.). Tais objectos como a lâmpada, o altar, o incenso, a túnica, o anel, e mesmo o círculo (ou pentagrama), combinados com as palavras do poder e as regras formais da cerimónia, não brotaram até ao advento da influência da lógica e pensamento analítico dos gregos. Quando esta síntese foi alcançada, estes instrumentos tornaram-se os componentes activos através dos quais o Mago impunha a sua vontade e poder sobre o universo. Todavia, é verdade que os primeiros Magos Egípcios já usavam instrumentos simples, mas nem mesmo ai, eles tinham ao seu dispor, o desígnio inteligente das acções Mágicas que os gregos ajudaram a alcançar.

A teoria que subjaz nos rituais desta corrente Hermética, e a prática desse tipo de Magia, cria uma tensão grande na estrutura mental, na natureza física e nas faculdades espirituais do Mago, similares às que criam em muitos dos rituais de Magia Cerimonial do nosso sistema contemporâneo de Magia. E aqui, a conjuração é um desses exemplos.

30.9.12

História dos Grimoiriuns (Era Magia Hermética Pt.4)

Contudo, houve mágicos e estudiosos que levaram a sério os rituais antigos, e procuraram trazer aos dias de hoje esse poderoso manancial. O melhor exemplo continua a ser o da chamada «Aurora Dourada», como é reconhecido pelo Prof. Gilbert (Cf. GILBERT, R. - «Introduction». In: WESTCOTT, W. - Collectanea Hermetica. São Francisco: Red Wheel/Weiser, 1998.) na introdução que fez à famosa e importante obra «Collectanea Hermetica». Neste volume constituído por dez livros, compilados a partir de uma série de textos clássicos de alquimia e gnosticismo, e ainda outros que haviam já sido compilados pelo célebre Westcott, o co-fundador da Ordem Hermética da Aurora Dourada.

Contudo, a importância da obra de Farr (Cf., FARR, F. - The Enochian Experiments of the Golden Dawn [não disponho desta obra em livro, pelo que não tenho os restantes dados bibliográficos]) juntamente com as outras nove da Collectanea, foram a base intelectual para esse sistema de Magia renovado, como explica Gilbert (Cf., GILBERT, R. - The Magical Mason: Forgotten Hermetic Writings of Westcott. Wellingborough: The Aquarian Press, 1983, pp. 7-9.) . Certamente que Westcott (médico de formação base, académico, mas principalmente investigador), estava ciente da importância da descoberta dos papiros Greco-Egípcios. Ele logo apreendeu o manancial dessa descoberta, cerca de um século antes da fundação da Ordem Hermética da Aurora Dourada, e compreendeu que o seu conteúdo necessitaria de gerações para traduzir, estudar e abarcar.

Isto percebe-se melhor através da leitura dos diferentes prefácios às diferentes secções da Collectanea Hermetica. Neles, alguém fica com a impressão da relutância e total falta de segurança por parte de Westcott; pois o autor suspeitava da própria incompletude da Collectanea, porque tinha presente que lhe faltava material para ficar verdadeiramente completa. Todavia, ele teve a coragem para seguir em frente, e dar espaço na sua obra a material que mais tarde se veio a encontrar em vestígios arqueológicos.

Contudo, apesar dos esforços de Westcott presentes na sua obra basilar, a chamada Magia Hermética que tão vulgarmente ouvimos falar nos nossos dias, ignora por completo os ritos antigos que deram origem ao seu nome. Apesar da insistência de Westcott e dos seus estudos para restituir a árvore genealógica da Magia, continuamos a ignorar esta herança valiosa, bastando para isso qualquer pessoa examinar um grande número de documentos e rituais da «Aurora Dourada» ou de qualquer outra sociedade ou corrente contemporâneas que carrega consigo a palavra Hermética.

28.9.12

História dos Grimoiriuns (Era Magia Hermética Pt.3)

A Magia Hermética engloba um sistema teorético, teológico, filosófico e de prática Mágica completos. Se se pode dizer que a Magia encontra aqui o seu ponto de início, ou de origem no sentido clássico da palavra, esta deriva de fontes Greco-Egípcias. Como referiu o Dr. Flowers, a magia presente nos papiros egípcios é a primeira tentativa conhecida de fundir várias formas de tradições mágicas de muitas fontes diferentes desde o mediterrâneo aos povos do leste, integrando-as para formar um só sistema (Cf., FLOWERS, S. - Hermetic Magic: The Postmodern Papyrus of Abaris. Nova Iorque: Weiser, 1995, pp. 19-20). A análise rigorosa deste autor revela que o sistema ecléctico resultante do contributo Greco-Egípcio retinha traços significativos dos seus componentes originais; chaves usadas para estender este sistema mágico em outros sistemas mágicos durante o tempo. Não só são as acções rituais encontradas no sistema Greco-Egípcio fortemente reflectidas nos seis sistemas Mágicos mais tardios (aqueles que classificámos na parte anterior deste artigo no blogue), mas os seus padrões de pensamento e filosofia encontram-se reflectidos em todas as correntes de magia.

O Dr. Flowers ilustra perfeitamente este ponto na sua construção e interpretação da árvore cosmográfica grega (Cf., FLOWERS, S. - Hermetic Magic: The Postmodern Papyrus of Abaris. Nova Iorque: Weiser, 1985, pp. 47-54). Esta é uma versão pagã da mais tardia tradição da Cabala Hebraica, tão conhecida nos dias de hoje, e sob a qual muitas das contemporâneas correntes mágicas são edificadas. Contudo, esta árvore cosmográfica tem a sua origem na chamada Cosmologia Neo-Platónica (Num outro post sobre Filosofia da Magia Negra iremos desenvolver estes traços da filosofia que têm origem em Platão e se estendem no início do Cristianismo).

Como a sua contra parte Hebraica, que foi usada como um molde para se edificar as dez esferas de qualidades, e os vinte e dois caminhos das projecções dessas qualidades no mundo da mente e da matéria. E, como na Cabala ocidental que é baseada na Cabala Hebraica original, este glifo pagão tem atribuições de caminhos e ligações entre as suas dez esferas ou «Sephiroths». Podemos encontrar até bem mais importante, que mesmo um estudo casual deste forma inicial pagã revela diferentes ligações dos caminhos entre as esferas e aqueles que são usados na versão ocidental. Isto imediatamente sugere outras forças, ou outras interacções entre espíritos, na medida em que possivelmente, estes estendem o alcance da árvore da vida da Cabala num novo ritual e cerimónias, muito para além do que é hoje em dia conhecido, mesmo nas sociedades contemporâneas das Artes Negras.

Outro aspecto de vital importância em compreender o lado prático da Magia Hermética, é o intitulado papiro Mágico traduzido pelo Prof. Hans Betz. Este é um trabalho académico, no sentido verdadeiro da palavra, sendo uma apresentação aprofundada de um grande número de feitiços mágicos e fórmulas derivadas directamente de papiros originais Greco-Egipcíos (Cf., BETZ, H. - The Greek Magical Papyrus: including the Demotic Spells. Chicago: The University of Chicago Press, 1986.) Como tal, é uma obra de valor incalculável para aquele que hoje se dedica às Artes Negras, mesmo que tenha sido usado principalmente para os académicos que estudam a história das religiões e a fenomenologia da experiência religiosa.

A verdade pura e dura, é que muitas das correntes Mágicas que hoje em dia empregam no seu uso a palavra Hermética, são na sua grande maioria, desconhecedoras da origem da palavra, da sua filosofia e conceitos, já para não falar das suas cerimónias. A razão para isto é que as fórmulas mágicas e feitiços presentes nos papiros, não foram descobertas e estudadas na Europa Ocidental até aos primeiros anos do séc. XIX, e que receberam especial atenção nos anos subsequentes.

Continua...

História dos Grimoiriuns (Preâmbulo Pt.2)

 Como físico que fui, eu estava muito preocupado com a estrutura das relações de causalidade na minha pesquisa científica. E porquê? Porque a estrutura fornece um enquadramento, que apesar de parecer pedaços de informação desconexa, assemelham-se antes à imagem de um puzzle, que fornece um certo vislumbre da cena a ser trabalhada. Além disso, também dá uma certa compreensão dos padrões que não são facilmente vistos à primeira vista, como pequenas pistas nos fenómenos das forças físicas que se movem atrás da cena a ser estudada. O fenómeno da causalidade permite-nos compreender as forças que moldam a própria estrutura, e dão forma aos padrões a serem estudados.

Esses são os mesmos ingredientes essenciais para se compreender a história de qualquer área de estudo, incluindo da própria Magia: estrutura e causalidade. Ao compreender a estrutura e causalidade por detrás da história da Magia, perceber-se-á duas poderosas ferramentas para se compreender a própria Magia.

Uma vez adquiridas essas ferramentas, as nossas faculdades intuitivas irão automaticamente nos ensinar como as usar eficazmente no nosso dia a dia, mas sobretudo nos trabalhos Mágicos, de forma a que se possa proceder com confiança nas Artes Negras.

Mas de forma a melhor se alcançar este objectivo, dividirei a história da prática da Magia Negra em sete sistemas ou correntes distintas, sendo que cada uma tem um período histórico mais ou menos bem definido.

A razão para estas divisões é que elas nos introduzem mais aprofundadamente na estrutura do próprio problema a ser estudado. Uma vez que tenhamos a estrutura, nós poderemos encontrar padrões. E os padrões conduzem-nos a uma melhor compreensão da área de estudo. Então, este conhecimento se irá tornar na ferramenta com a qual as nossas faculdades intuitivas irão começar directamente a trabalhar nas Cerimónias das Artes Negras. Por sua vez, esta intuição posta em prática na Magia Negra, irá conferir a confiança necessária ao Mago, que se verá reflectida nos resultados Mágicos obtidos no seu dia-a-dia.

Com estes conceitos em mente, nós já podemos explorar o básico da inteligibilidade Mágica. 

Os sete sistemas Mágicos que iremos explorar nos próximos artigos são:
  1. Era Mágica Hermética
  2. Era Mágica da Idade das Trevas ( Tal como no mundo académico, entende-se este período como aquele que vai do fim do Império Romano até à formação do Sacro-Império Romano Germano com Carlos Magno no ano de 800 d.c.)
  3. Era Mágica Medieval
  4. Era Mágica do Renascimento
  5. Era Mágica  do período de Transição (Tal como no mundo académico, entende-se este perído como «Idade Moderna», sendo aquele que vai do fim do Renascimento até ao final da Revolução Francesa)
  6. Era Mágica do revivalismo Gótico
  7. Era Mágica Contemporânea

27.9.12

História dos Grimoiriuns (Introdução Pt.1)

A História não é um estudo estático de eventos congelados no tempo. É um exercício mental dinâmico na aprendizagem das relações de causa-efeito, de forças que formaram uma dada área de investigação. Sem uma compreensão dessas forças, independentemente da matéria histórica a ser investigada, não se pode abarcar o estado geral da matéria de estudo, ou as intrincadas relações que deram a forma intelectual necessária para o estudo e uso dessas forças (Cf., McCarney, J. - Hegel on History. Routledge: Nova Iorque, 2000, pp. 39-48).

Contudo, independentemente da matéria de estudo, o estudo da história incomoda muita gente. Já Hegel dizia que: "A história ensina que ninguém aprende nada com a história" (Infelizmente não consigo precisar o local exacto onde li esta passagem de Hegel). Frequentemente, o esforço mental requerido para compreender as subtilezas do pano de fundo de qualquer área de estudo, são geralmente rotuladas por uma perda de tempo. Porém, essas mesmas pessoas irão, de vez em quando, assistir a algum programa televisivo sobre história, ler um artigo de uma revista sobre história, ou mesmo até pegar num livro que lida com uma perspectiva história acerca de algum tema que lhes cative o interesse. Contudo, e não tão poucas vezes, essas pessoas só o fazem quando não têm nada de mais interessante para fazer.

Na sociedade de hoje, as pessoas somente arranjam tempo para coisas que lhes satisfaçam alguma necessidade mais básica. Isto de certa forma é compreensível no que diz respeito à rotina ou às preocupações de cada dia. Porém, não poderia haver maior erro se apenas ficássemos por aí.

Pela compreensão das relações básicas de causa efeito que motivaram a redacção dos Grimoiriuns, e as forças da necessidade humana que as refinaram, então alguém poderia estar numa melhor posição para compreender e interpretar de forma inteligente, não só as gramáticas do passado, mas os textos mágicos mais contemporâneos. Estas são as razões para a importância do estudo da história dos livros Mágicos.

Nestes subsequentes artigos, tentarei explicar donde vieram os Grimoiriuns, como é que eles foram originalmente escritos, e os pertinentes factores sociais e religiosos que influenciaram a sua criação e conteúdo. Mas mais importante do que isso, como é que a invocação destes espíritos malignos se desenvolveram ao longo de três milénios. Exactamente isso, desde um período aproximado de três milénios.

 Continua...

Sobre o Pseudomonarchia Daemonum (Libber Officiorum spirituum) (Parte 2)

 Na obra de Weyer estão presentes variações dos nomes de muitos demónios, revelando isto que ela foi redigida mais ou menos na altura em que Weyer leu as Clavículas de Salomão, cerca do ano de 1563.

Infelizmente, Weyer deixou uma nota ao leitor em que admite ter omitido muitas passagens do texto original, de forma a deixar impraticável o livro. Um estudo realizado por Boudet, inclui uma comparação detalha de dois textos da época, em que revela que a obra de Weyer já vem cortada desde o princípio,  e que essa informação diria respeito a Lucifer, Belzebu, Satan e aos quatro demónios dos pontos cardinais (Cf. BOUDET, J. - Les who's who démonologiques de la Renaissance et leurs ancêtres médiévaux. In: Mediévales, nº 44, 2003, pp. 117-140) Além disso, o ritual no fim do Pseudomonarchia é muito menor que o presente no Liber Consecrationum (Cf., KIERCKHEFER, R. - Forbidden Rites: a Necromancer's Manual of the Fifteen Century. The Pennsylvania State University Press: University Park, 1998, pp. 256-276). Por último, o próprio texto de Weyer apresenta sinais de abreviação.



Já é reconhecido desde à muito que a obra de Weyer apresenta similaridades com o primeiro livro do Lemegeton, a saber, o Ars Goetia, que corresponde de forma aproximada ao catálogo de Demónios de Weyer, apesar que no texto de Weyer não apareçam selos demoníacos, e os demónios invocados o sejam por uma simples conjuração, e não pelo completo rito do Lemegeton.


Contudo, a diferença mais relevante entre a obra de Weyer e o Ars Goetia encontra-se na ordem dos espíritos. Até agora não encontrei explicação para essa diferença, nem nos autores nem nas minhas próprias conclusões; é quase como se um baralho de cartas tivesse sido baralhado. Acrescente-se a isso que no Ars Goetia estão presentes mais quatro demónios.

Todavia, outra pequena singularidade pode ser de maior significância, a saber, que o quarto demónio presente na obra de Weyer, isto é, Ruflas (ou Bufas), foi acidentalmente deixado de lado na célebre tradução para Inglês de Reginald Scot (encontrado no seu muito racional «Descoberta da Magia» de 1584). Outra explicação pode ser o facto deste demónio não se encontrar na obra de Weyer numa edição que possa ter sido utilizada por Scot para traduzir o texto. O que é curioso sobre esta ausência de Pruflas (ou Bufas) é que é o único demónio que não consta da lista do Lemegeton. A vantagem deste enigma é que ele poderia ser resolvido, caso fosse encontrada uma edição específica que introduzisse este defeito. É que a resolver este enigma, estaríamos aptos a também corrigir, ou precisar melhor, a data da composição do Ars Goetia na sua presente forma.



26.9.12

Sobre o Pseudomonarchia Daemonum (Liber Officiorum spirituum) (Parte 1)

Johann Weyer foi o autor de umas das mais importantes obras de Magia Negra, a saber, o Pseudomonarchia Daemonum. Weyer nasceu no ano de 1515 em Grave (actual Holanda), tendo sido um famoso médico e demonologista. Veio a falecer no ano de 1588 em Tecklenburg (actual Alemanha).

Weyer para além de ter sido um pioneiro na área da medicina, era um firme convicto na Magia Negra. Tanto que Weyer foi aluno de um dos mais famosos magos de todos os tempos, a saber H. C. Agrippa. A sua obra Praestigiis Daemonum (1563) foi basicamente uma contra-argumentação à tenebrosa caça às bruxas que se assistiu no sec. XVI. A sua obra é tão crucial que até Sigmund Freud a apelidou de um dos dez livros mais significativos de todos os tempos.


Como apêndice a esta obra monumental, Weyer adicionou uma hierarquia dos demónios a que ele chamou de Pseudomonarchia Daemonum. Weyer referiu a sua fonte de informação, um livro chamado: Liber officiorum spirituum, seu liber dictus Empto. Salomonis, de principibus et regibus daemoniorum (Livro dos ofícios dos espíritos, ou o livro chamado de Empto. Salomonis com respeito aos príncipes e réis dos demónios).