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6.2.13

Amarração ou Amarrações : Feitiço e Magia do Amor - Tudo aquilo que precisa de saber (Parte 3: História das Amarrações - Magia do Amor, Idade Média)

Tendo visto de forma simples a história da Amarração ou da Magia do Amor na Grécia Antiga, iremos agora avançar para o período medieval e renascentista. Com respeito ao último post perguntaram-me sobre a mesma Magia no mesmo periodo histórico mas noutras culturas, nomeadamente nas culturas Orientais. Aproveito agora para responder que infelizmente apenas sei coisas soltas sobre as velhas tradições Mágicas Orientais. Nunca me debrucei muito sobre essas tradições Mágicas. Tenho alguns bons livros sobre essas tradições, que mal tenha um pouco mais de tempo irei colocar à disposição para Download. Assim como não tão oriental mas próximo do Médio Oriente, irei colocar fontes das tradições Persas e Mesopotâneas, que foram em parte quem trouxe muitos conhecimentos Mágicos para a Grécia.

Por uma questão de simplificação vamos considerar a Idade Média como tendo ínicio após a Queda de Roma no ano de 476dc e tendo o seu fim com a queda de Constantinopla em 1453. Também por simplificação vamos considerar o Renascimento como o período que vai desde a queda de Constatinopla até ao século XVII. Logo neste post vamos cobrir este período histórico.


Infelizmente desde a Queda de Roma até ao Renascimento, sendo que este último foi um dos periodos mais férteis da História da Magia, assiste-se a uma carência de informação sobre a transição dos Ritos Mágicos Helénicos até aos Ritos Mágicos Renascentistas que são aqueles que tomam a forma mais similar com aquilo que hoje em dia se pratica. Aquilo que temos actualmente ao nosso dispor são pontas soltas. Contudo, essas pontas soltas são em número suficiente para termos uma boa imagem da História da Magia do Amor durante aquele período.

Durante o período da Idade Média, poucos eram aqueles que sabiam ler e escrever, por causa disso muitas das informações que temos vêem da parte de membros da Igreja Católica que praticavam Magia Cerimonial. Por isso, em parte o que sabemos vem destas fontes.

No que diz respeito às Amarrações e à Magia do Amor,  observamos que existem algumas coisas que se mantêm desde o período Helénico e outras que se alteram. Como havia mencionado no post anterior, novamente as mulheres são victímas do estereótipo e mito de serem as responsáveis pela práctica e desenvolvimento deste tipo de Magia.

Por outro lado, um impulso dado nos Ritos de Amarração ou de Magia do Amor acontece com a obra de São Cipriano, onde começa a surgir uma sistematização de vários Ritos Gregos e Egípcios, tendo como fim último a Amarração de Ágape, aquela que é similar ao entendimento comum de hoje em dia. E é com base nesta sistematização de São Cipriano que encontramos vários ritos e notas ao longo da subsequente história medieval, como por exemplo a do Monge Alemão Jonas Sufurino no ano de 1001.

Ao mesmo tempo, observa-se a um renovamento da Amarração de Eros, tendo o fim último de apenas se alcançar relações sexuais. Estes ritos ganham nova forma na Idade Média, e os seus relatos e ritos escritos dizem respeito a Monges e membros do Clero Católico. Poder-se-ia dizer que o fim último destes ao recorrerem a este tipo de Magia era o de Flertarem (perdoem-me o neologismo). É interessante observar que este uso da Magia de Amor surge num contexto muito diferente daquele donde teve a sua origem. Em certos estratos e pontos da Cultura Grega assistia-se a uma liberalização da sexualidade sendo nesse contexto o surgimento de vários relatos da Amarração de Eros. O que agora é curioso na Idade Média Cristã é o ressurgimento e reforço desta prática Mágica, mas agora num contexto em que a sexualidade é reprimida.

É interessante também se observar que a Amarração ou a Magia do Amor é um dos princípais alvos por parte da Inquisição sobre quem pratica as Artes, como se observa numa nota de 1627 em Veneza por parte do tribunal da Inquisição. Para mais detalhes pode-se ver no seguinte livro nas páginas 80-82, basta carregar no link: «Davies, O - Grimoires: A History of Magic Books. Oxford: Oxford University Press, 2009»

Contudo, deste último ponto é importante salientar que surge um novo tipo de Amarração, ou mais precisamente, não um novo tipo mas uma nova finalidade. A ideia que hoje temos de casamento (ou matrimónio num paradigma cristão), tem a sua origem com a evolução do cristianismo. Por isso, na Idade Média começa-se a assistir a amarrações com o objectivo último de salvar casamentos. Apesar de a questão do divórcio ser quase nula durante aquele período, o objectivo era salvar a relação e não evitar o divórcio como infelizmente hoje acontece. Um desses relatos, chega-nos de uma Maga (ou Bruxa para quem preferir) de nome Elisabete que procura recuperar a relação amorosa com o seu marido Teodorico. Contudo, como anteriormente havia referido não eram só as mulheres que praticavam a Amarração, mas os homens igualmente o faziam. Para mais detalhes sobre este tema, recomendo a leitura da página 187-188 do seguinte livro, basta carregar no link: «LÁNG, B. - Unlocked Books: Manuscripts of Learned Magic in the Medieval Libraries of Central Europe. University Park: Pennsylvania State University Press, 2008».

Ao mesmo tempo, começa-se a observar o uso da antiga Amarração Grega baseada na Philia (que expliquei no post anterior), a saber, uma amarração para criar um vínculo de amizade, mas desta vez com fins políticos. Existem relatos de que o Rei Polaco Augustine Sigismund (1520-1572), seria alvo deste tipo de trabalhos para se obter favores políticos com recurso a influências femininas. Para se ver fontes diversificadas sobre este tema basta carregar neste link: «Brzeżinska, A. - “Female Control of Dynastic Politics in Sixteenth-Century Poland"». E neste link: «Brzeżinska, A. - “Political Significance of Love Magic Accusations at the Jagiellonian Court”»

Então, deixa de ser praticada a Amarração de Afectos com o fim de «suavizar os corações» ou «ligar o que anda distante» para ser agora uma forma de vínculo a melhor se conseguir algo de um determinado alvo.

É no final do Renascimento com o surgimento dos Grimoriuns (com a forma actual com que se apresentam) que as Amarrações ou Magia do Amor foram  consolidadas.

Muito mais haveria para se dizer sobre este e o período da Antiguidade Clássica. Contudo, estes posts procuram ser simples. Em princípio não irei tratar o periodo histórico subsequente até aos nossos dias, visto já serem muito similares com o que hoje praticamos. Para mais informações este próximo livro também é interessante, basta carregar no link: «SZEGHYOVA, B. - The Roles of Magic in the Past. Bratislava: Pro Historia, 2005».




13.10.12

O Verdadeiro e Original Livro de São Cipriano - Clavis Infernis

Talvez a generalidade das pessoas não saiba que os Livros intitulados de São Cipriano que geralmente vê à venda em livrarias como na Fnac, Bertrand entre outras não são o livro original, mas versões adaptadas às tradições mágicas Ibéricas e do Brasil. Por isso, é que existem tantas versões diferentes com algumas disparidades sérias. Contudo, noutros países o mesmo acontece, por exemplo na Suécia eles têm uma versão própria do Livro de São Cipriano. Para saber um pouco mais sobre São Cipriano veja este post.

Contudo, o Livro original intitula-se Clavis Infernis, a saber «a Chave para o Inferno». Existe uma boa tradução do original em Inglês que aqui vos deixo para quem quiser ler o livro autêntico.




São Cipriano o Santo Negro: o Exemplo de como as Artes não têm verdadeiramente cores, e que em tudo se pode obter Crescimento e Ascensão Espiritual

São Cipriano mais conhecido na tradição da Igreja Católica como São Cipriano de Antioquia é um requintado paradoxo, e na minha opinião, uma figura que vem resolver o dualismo filosófico provocado por um juízo moral errado do senso comum. A saber, a ideia que as pessoas geralmente têm, de que quem pratica ou recorre à Magia Negra tem necessariamente de ser alguém eticamente má. Então, a questão interessante a ser colocada pode ser esta: pode alguém ser um Mago Negro ou servir-se das Artes Negras e mesmo assim procurar realizar para si uma elevação e transformação espiritual? E ultimamente, o que é que constitui essa transformação se não uma ascensão para a realidade espiritual?

O Mito deste Santo tem muitas camadas e pontos de vista, quando alguém se detém em observar a veneração que lhe é dada nas tradições presentes desde a América do Sul à América do Norte (ele está mais presente nessas culturas do que na nossa cultura Europeia), onde é tido principalmente como o Patrono dos Magos, Bruxos e de qualquer pessoa dada às ciências ocultas, percebe-se que a tradição desses locais encontrou nele um exemplo de quem tendo na sua vida seguido as Artes Negras nunca deixou de através delas procurar a sua ascensão espiritual.

A vida deste Santo é bastante curiosa e boa de se saber. São Cipriano como relatam as fontes históricas e hageográficas foi um poderoso Mago, bem sucedido nas Artes Negras. Ele era especialista em Magia Negra de Conjuração, onde são relatados os seus muitos trabalhos na invocação e conjuração de Legiões de Demónios para aumento da sua sabedoria e para dominar as Artes. Contudo, aconteceu que um seu cliente certa vez pediu-lhe um trabalho de Alta Magia Negra contra a pessoa de Santa Justina. Aconteceu que esta Santa conseguiu repelir os espíritos impuros lançados por São Cipriano. Acontece, que Cipriano nessa altura teve uma revelação, e percebeu que apesar da cor negra da sua Arte, esta podia ser um meio de ascender espiritualmente. E, apesar de ter continuado um Mago Negro, ele converteu-se ao Cristianismo de então, muito diferente daquele que hoje se assiste, e pregou junto dos pagãos tendo convertido a muitos. Ao mesmo tempo, e a Igreja Católica tentou sempre apagar este facto, ele prosseguiu a sua sabedoria nas Artes Negras. Mais tarde São Cipriano tal como Santa Justina foram martirizados.

O que a Igreja Católica procura apagar é o outro lado da vida deste Santo. São Cipriano deixou-nos um Livro Negro; um Grimoirium famoso e temido através de toda a diáspora. O que é interessante sobre isso é a ambiguidade que este Grimoirium provoca em torno deste Santo, em parte por causa dos muitos mitos que estão associados a este livro. Uma dessas referências antigas, afirma que São Cipriano em verdade não se converteu totalmente ao Cristianismo, mas que este foi um meio para aprofundar o conhecimento das Artes e do seu próprio crescimento espiritual.

O Livro original de São Cipriano descreve todos os tipos de operações mágicas, desde pequenos feitiços até conjurações cerimoniais. Ele encontra-se intrinsecamente relacionado com o Grimoirium Verum. Tanto que encontramos no Livro de São Cipriano uma hierarquia dos espíritos infernais similar a este último. O que não deixa de ser curioso e que passa ao lado de muitas pessoas, para além dos mitos associados a ele, é que neste livro encontramos boa parte das raízes da tradição Umbanda e Quimbanda tão presentes no Brasil. Assim como a primeira vez que o li em português (Antigo Livro de São Cipriano: o Gigante e verdadeira capa de aço) encontrei nele imensas fontes brasileiras, feitiços e títulos que eram claramente brasileiros e não do próprio Santo. Isto deve-se à imensa influência que o livro deixou na cultura mágica brasileira. Tanto que hoje o livro chega-nos em português com mais da sua influência brasileira do que conteúdo verdadeiramente original de São Cipriano.

O que é realmente importante é que neste Santo encontramos alguém com um pé no lado Branco e outro no lado Negro. Ele demonstra com a sua vida, que é possível crescer no bem como no mal, que é possível ser se coerente praticando as Artes pelo seu valor e, que ao contrário do que o senso-comum diz, nem o dito «lado branco» ou «lado negro» são impeditivos no crescimento e elevação espiritual. Um exemplo disto, recorrendo à tradição brasileira, é que tanto umbandistas assim como quimbandistas e outros magos, quando têm de lidar com dificuldades espirituais recorrem muitas vezes a este Santo. Pois acredita-se que ele intercede junto dos praticantes das Artes, dando-lhes força, protecção e alento.

Por tudo isto, São Cipriano de Antioquia incorpora verdadeiramente esta visão mágica para mim, de alguém que soube levar a Arte até ao fim, e nela continuar a sua ascensão espiritual, pois bem e mal não têm cores, da mesma maneira que nem a Arte nem os seus praticantes e seguidores têm cores.